Nós Por Elas – Maria Angélica Fernandes Rocha

Maria Angélica Fernandes Rocha

“Ao chegar na ocupação, foram muitas as pessoas que passaram por nós, e nós dávamos água, o que comer, beber, sem perguntar se ele era rico, se era pobre, se ele tinha, se ele não tinha. E dividir o próprio pão que nós tínhamos, porque nós temos uma maneira de ser nas ocupações que é assim: se tem pão, vamos dividir esse pão. (…) Se tem um copo de água, vamos deixar aqui na vista, pois se chegar alguém com sede, vamos dar essa água, esse pão para comer. Então, o MTST me ensinou isso e sinto orgulho de falar isso, orgulho de ser essa pessoa que sou. Digo, sem medo de errar: se esse governo, o que eles estão fazendo lá em cima, se fizesse um grão de mostarda do que o MTST tem ensinado a tantas pessoas, (…) se fizessem uma partezinha do que o MTST tem feito por várias pessoas por esse mundo afora no qual o Guilherme tem caminhado, se fizessem alguma coisa, o país não estava da maneira como está hoje. Hoje nossos filhos teriam como ter orgulho do Brasil em que nós estamos vivendo.”

Maria Angélica Fernandes Rocha, nascida e casada em Vitória da Conquista/BA, chegou em São Paulo com 17 anos. Foi casada por 35 anos, já teve moradia, vivia bem em uma casa em São Paulo, mas seu ex-marido acabou vendendo a casa e os terrenos do casal e de seus 4 filhos – foi quando “voltaram ao zero”, como conta.

Criada em família evangélica, Angélica sempre havia levado uma vida “da igreja para casa, de casa para a igreja”. Chegou ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, MTST, a pedido de uma amiga, Michele, também evangélica, que estava entrando no movimento. Tia Angélica foi visitar a ocupação escondida de seu então marido, que era contra que fossem para a ocupação, mesmo depois de perderem tudo o que tinham. Ela insistiu: “Agora é tudo ou nada”.

Ninguém vai morar em ocupação porque quer. Angélica também conta de suas dificuldades em sua chegada à ocupação: “Quando cheguei lá, à noite, tive medo, porque eu ouvia falar…ouvia xingarem de vagabundos. (…) Me senti estranha, muito estranha mesmo”. Enquanto ajudava a amiga Michele conta como “começou a gostar desse negócio”. Ajudou o casal de amigos, recebeu também ajuda para montar seu próprio barraco de lona. “A gente parece que está em outro mundo, mas isso é uma ilusão da cabeça da gente. (…) A gente convive com as pessoas, e às vezes é pela aparência, pelo que as pessoas falam, e a gente acaba decantando isso na vida da gente, achando que a gente é diferente, mas não é”.

Tia Angélica conta ter sido muito criticada por seus pastores, mas também ter muito orgulho – palavra frequente em sua fala – de sua história. Seu depoimento é todo entrelaçado pela relação que estabelece entre seu aprendizado na igreja, com a Bíblia, e no MTST, com exemplos de solidariedade e união que testemunhou.

“Tenho muito orgulho de ser uma militante do MTST. Tenho muito orgulho da família que criei. Porque achei que minha família eram só pessoas com quem nasci e me criei no berço evangélico da igreja, mas, sem falar dos motivos pelos quais isso acontece… tem coisas que prendem muito a gente…da gente saber olhar a Bíblia como um exemplo – eu tenho a Bíblia como um exemplo – , mas muitos têm hoje [a Bíblia] como um livro que fecha muito a pessoa. E a Bíblia não é isso: no MTST eu fui saber que a Bíblia é um livro, mas um livro aberto: ela dá voz ativa para você entender como caminhar, entender como agir e como conversar com as pessoas. E como mostrar para as pessoas as coisas boas, mostrar o que tantas vezes vive preso, sem entender o que são capazes de fazer. Eu aprendi. Aprendi muito aqui no MTST”.

Tia Angélica está há dez anos no movimento sem teto: “Hoje, não penso em casa, hoje penso no que o MTST foi na minha vida”. Conta principalmente sobre dois aprendizados: a simplicidade, dividir o que se tem, união e solidariedade, além de aprender a falar, a ter voz: “Sinto orgulho de ser a pessoa que sou hoje, porque hoje sou vista, as pessoas me escutam falar, hoje eu chego em um hospital, quando vejo alguma coisa errada, chego e falo e eles me ouvem. Antigamente não ouviam. Quem me ensinou isso? Quem me ensinou a levar essa voz foi o MTST, esse movimento.”

“Aprendi uma coisa: a gente tem de ser livre, ter nossos objetivos, não estar olhando se é pobre, ou rico, mas a gente tem de aprender a falar, a caminhar com nossos passos, mostrar ao Brasil, ao mundo, que nossa voz vai muito além do que a gente pensa”.

https://youtu.be/uNze825QVxc

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