Guilherme Boulos: ‘Quem não consegue pagar aluguel no fim do mês é terrorista?’

Após visita a Lula, líder do MTST e candidato do PSOL na disputa presidencial criticou as investidas contra os movimentos sociais

‘Não basta votar a cada quatro anos. Democracia se sustenta com a prática no dia a dia e o respeito’ | Foto por Joka Madruga

Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos esteve nesta quinta-feira 8, na sede da Superintendência da Policia Federal, em Curitiba, para mais uma visita ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso há 217 dias.

Na saída, Boulos afirmou que a tentativa dos deputados em aprovar o projeto que classifica os movimentos sociais como organizações terroristas é um “descalabro de pessoas e regimes autoritários”.

“Qualificar a luta social como terrorismo é próprio de quem não consegue conviver com oposição, de quem não consegue conviver com contestação, de quem não consegue conviver com democracia” disse Boulos. O projeto que tramita no Congresso está sob a relatoria do senador Magno Malta, PR-ES, aliado de Jair Bolsonaro. Malta compõe o grupo de parlamentares que quer incluir como “atos terroristas” as manifestações e ocupações do MTST e do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, MST.

Ainda segundo Boulos, os movimentos sociais são responsáveis por uma série de conquistas no País e muitos integrantes desses movimentos vivem em casas e prédios abandonados porque não têm dinheiro para pagar aluguel. “[Eles] não ocupam a casa de ninguém, como o preconceito diz, como as Fake News dizem. Ocupam imóveis que estão em situação ilegal, de abandono, assim como o MST faz no campo, ocupa latifúndios improdutivos”, afirmou.

“É disso que se trata. Essas pessoas são terroristas? Alguém que não consegue pagar aluguel no fim do mês é terrorista? Um trabalhador boia-fria que vai para uma ocupação para ter uma terra para plantar é terrorista? Isso é descabido”.

Ainda segundo Boulos, ninguém acaba com movimento social com decreto ou com lei, e que “se alguém acredita que isso vai calar ou acabar com a luta dos movimentos sociais, está muito enganado”.

Enfático, o líder do MTST questionou: “Querem acabar com o MTST? Só tem um jeito. Construam 6 milhões de casas para todos os sem-teto desse país. Querem acabar com o movimento sem-terra, também só tem um jeito: faça reforma agrária e dê terra para quem precisa”.

Visita a Lula

Boulos falou que “como todos nós, o presidente Lula está preocupado com o destino do país, com o risco aos direitos sociais, às liberdades democráticas que a gente tem vivido nesses tempos”. Ressaltou o desejo e o estimulo do ex-presidente para que os movimentos sociais não se amedrontem neste momento histórico da vida nacional.

“Ele estimulou as pessoas que sigam na luta, que não se intimidem, que não se deixem levar por esse momento sombrio. E nós, dos movimentos sociais, as forças populares desse país, vamos seguir lutando por direitos, por democracia”, afirmou.

Disse que, “mesmo com essas nuvens tão sombrias que estão sobre nosso país, precisamos seguir resistindo. Não vamos nos intimidar, baixar nossas bandeiras”. Citou o exemplo de Lula, que mesmo preso há mais de sete meses está otimista e disposto a resistir. “Não temos o direito de recuar. Nós temos a responsabilidade histórica de seguir lutando, mesmo em condições duras, pela democracia, pelos nossos direitos e pelas liberdades sociais”.

Pediu aos militantes que não fraquejem, que não desistam, porque este momento vai passar. “Já vivemos momentos tão difíceis, tão duros da nossa história e passaram. Mas só passaram porque teve gente que não se curvou, que resistiu, que teve compromisso com a história, com o passado e com o futuro. Nós estamos, neste momento, plantando a semente do futuro”.

Justificou a luta diária em prol da democracia porque “ao contrário do que querem nossos adversários, quando dizem que vivemos em uma democracia porque existem eleições, lembrar que não basta votar a cada quatro anos. Democracia se sustenta com a prática no dia a dia e o respeito a Constituição, as oposições, as minorias e a liberdade de expressão”.

 

 

Por Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST e da Frente Povo Sem Medo, e ex-candidato à Presidência da República pelo PSOL.

Fonte: Carta Capital

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