Dia 20 de Julho, terça feira, tomamos o saguão do Ministério das Cidades, e lá acampamos. Mais uma batalha por direitos que são nossos, por condições melhores de vida. Fomos recebidos pelo Ministro das Cidades, pela Secretária Nacional de Habitacional e pelo Secretario de Programas Urbanas.
Nos atenderam. Nos ouviram. A Luta, a resistência e a mobilização cumpriram seus objetivos. Depois de tanto caminhar e de ser expulsos, jogados de um canto para o outro, despejados e sem ter pra onde ir, nos reunimos com aqueles que traçam os planos onde entramos somente como números. Desta vez, entramos como gente, gente brava, gente que se organiza.
O resultado das negociações foi positivo. Houve um comprometimento claro por parte do Ministro de garantir a todas as 600 famílias moradias. O Ministério buscará com a Terracap e com a Gerência de Patrimônio da União possíveis áreas para a construção das unidades habitacionais, e a CODAB realizará o cadastramento das famílias e analisará – a partir dele – quais são as possibilidades de atendimento colocadas. O MTST buscará entidade cadastrada e habilitada para seguir como gestora do projeto que deve ser implementado pelo programa Minha Casa, Minha Vida – Entidades.
O Ministro assumiu este compromisso em assembléia, com todo o povo que lá estava depois de percorrer a longa jornada que separou o despejo em Brazlândia do auditório do Ministério. Para nós é uma vitória. Do chão de Brasília ressurge a memória dos “candangos” nas lutas de agora. As lutas daqueles que constroem palácios e cidades inteiras sem ter um lugar para viver que possam chamar de seu.
Estamos contentes! Não pararemos de lutar até que as promessas se tornem realidades, e até que vejamos a riqueza que os trabalhadores produzem todos os dias ser por eles usufruída, numa vida melhor e mais justa.
Queremos compartilhar este momento, está primeira vitória no Distrito Federal, com todos os companheiros e companheiras dos sindicatos combativos que conosco estiveram, dos partidos de esquerda que ainda acreditam mais nas ruas do que nas eleições (embora também façam destas um campo de batalha), das centrais de luta que tentam reaglutinar o sonho dos trabalhadores unificados e, numa menção especial, com nossos companheiros e companheiras, irmãos e irmãs de todos os movimentos populares que junto conosco brigam dia a dia para pôr de pé a Resistência Urbana.
Com vocês, estamos menos sós. Com vocês partilhamos as derrotas e a indignação assim como hoje partilhamos a alegria de mais um passo rumo a construção do Poder Popular.
Criar! Criar! Poder Popular!
Hoje, 20 de Julho de 2010, confirmaram-se os boatos que ontem fizeram com que nos movêsse-mos até a sede administrativa da Terracap: O despejo veio.
Veio com a truculência de quem não quer conversa, de quem não se importa, de quem não dá a mínima para o fato de serem famílias inteiras de seres humanos, e não animais, os que ocupavam a área, que agora está de novo livre para não servir pra nada, livre para não produzir nada. E não apenas um despejo, outro se seguiu. O que nos retirou também do prédio da Terracap, onde manifestávamos nossa revolta pacificamente, e onde buscávamos uma alternativa diferente de apenas ser lançado no olho da rua.
Novamente a truculência foi a linguagem que substitui qualquer negociação decente.
Centenas de famílias agora caminham, enquanto escrevemos este comunicado, algumas apenas com a roupa do corpo – tudo o que o tempo concedido pela polícia lhes permitiu retirar de seus barracos. Caminham rumo ao edifício do Ministério das Cidades. Carregam, no entanto, essas famílias, o que de mais valioso possuíam, carregam a dignidade de quem ousa, a coragem de quem não apenas espera e a força de quem luta e constrói com a força dos próprios braços, somados a outros de irmãos e irmãs, o dia que vem.
“Não haverá negociação enquanto estiverem no terreno!” dizia o engodo do Sr Rogério Rosso, governador. Agora também o engodo está provado, não há negociação alguma, alternativa alguma, solução alguma. Há policiais a nos rodear, há famílias sem suas coisas e coisas por aí, jogadas como lixo sem seus donos.
Mas há também nossa perspectiva, isso há. Nos manteremos aqui enquanto pudermos, exigiremos tudo deste governo que não concede nada. Concessão, não! A terra é pública, deveria ser nossa. Por ela lutaremos e esperamos, aqui, diante deste edifício, a solidariedade de todos e, se preciso for, a coragem de todos para o confronto que poderá vir, não por vontade nossa; se vier será pela absoluta e completa falta de alternativa. A culpa e a responsabilidade pelo que pode vir a acontecer está nas mãos dos senhores do poder, do governo federal, do Sr. Rogério Rosso, governador e do Sr. Dalmo, presidente da Terracap.
No dia 1 de setembro, quarta feira, uma manifestação estava sendo organizada pelo movimento na município de Itapecerica da Serra, São Paulo. A reivindicação era relacionada as negociações da ocupação realizada em 2007 neste mesmo município, chamada João Candido. O objetivo era garantir que os terrenos desapropriados pela CDHU, na demanda do movimento, não tivessem qualquer tipo envolvimento ou intervenção da prefeitura no processo. Para isso, cerca de 450 pessoas se dirigiram a frente da prefeitura.
No entanto, o desenrolar do ato foi um pouco diferente do que esperávamos. Sem qualquer motivo, um ato pacífico se transformou em uma repressão policial. Os guardas que estavam acompanhando a ação, começaram a apontar suas armas para os manifestantes. O clima se tornou bastante tenso, havendo inclusive um disparo para o alto.
Como a prefeitura ainda não havia se manifestado para uma negociação, o movimento permaneceu no local, dando seus tradicionais gritos de ordem como resposta à repressão. Lutamos pelos nossos direitos, e isso não é um crime. Muito pelo contrário, é previsto na constituição. O direito de se manifestar, e a liberdade de expressão devem ser respeitados. E por isso não fugimos de nossa luta, e lá permanecemos até que representantes da prefeitura nos atendessem, e a negociação fosse garantida.
Como repúdio a essa repressão, o movimento saiu em marcha em direção ao DP, e lá denunciou o ocorrido.
TERRA (ao MTST e MST)
Quando olhei a terra sem os barracos
Deu vontade de chorar sim
Destroçados madeirite caibro sarrafos
Por que tiraram nossa gente dali
De uma terra que aguarda a semente
Para um povo se erguer
Faz brilhar nos olhos duma gente
O direito de viver
E esta mesma terra donde a vida se inicia
Donde a mesma se encerra
É vetada ao povo e improdutiva fica
Nas mãos de um que a gerações a herda
Este que só percebe que ela existe
Quando a massa necessita dela
Usa força e artifícios assim não desiste
Mesmo que sangue escorra pela terra.
Tantas riquezas são geradas
Do suor desta multidão
Mas esta massa é renegada
Negam-lhe a fonte de gerar o pão.
Sales de Azevedo é integrante da Cooperifa, coletivo que organiza todas as quartas feiras, no Bar do Zé Batidão, o Sarau da Cooperifa, na região da M'Boi Mirim na zona sul de São Paulo.
Temos a compreensão de que não nos adianta um teto, se não temos as nossas outras necessidades básicas. A nossa luta pela moradia, é acima de tudo, uma luta pela igualdade. Um luta por todos os nossos direitos que não nos são garantidos. E é também uma luta pela nosso direito a manifestar dignamente nossas culturas, seja isso pela nossa poesia, pela nossa música, pelas nossas artes plásticas, pelo nosso teatro, ou pelo nosso cinema.
Declaramos apoio a todos os coletivos culturais que atuam nas periferias, e que se mantém resistentes, organizando suas próprias atividades nas comunidades, trazendo a diversidade cultural a quem ela realmente pertence, ao povo trabalhador, seja isso na Zona Sul de São Paulo, ou em qualquer outro lugar do país.
É neste espírito e com esta clareza que teve início a Jornada Nacional de Lutas da RESISTÊNCIA URBANA, frente que mobiliza e unifica diversos movimentos populares em todo o país.
Uma série de ações ocorreram em mais de oito estados para denunciar a ausência de políticas contundentes no que diz respeito à solucionar de fato o problema da moradia e da Reforma Urbana.
Aqui em São Paulo, nós do MTST realizamos duas ações, a reocupação do Terreno em Taboão da Serra que abrigou por quase um ano a luta do acampamento Chico Mendes entre 2005 e 2006 e a ocupação simbólica de uma área que não cumpre função social alguma na cidade de Sumaré.
Em ambos os casos, as lutas tem um duplo caráter: Denunciar a demora e burocracia no atendimento à famílias que esperam – no caso de Taboão – há mais de 4 anos e por outro lado exigir a inclusão de outros tantos sem tetos que não possuem nem ao menos promessas.
A campanha acontece exatamente no momento em que o Programa do Governo Federal “Minha Casa, Minha Vida” exerce o papel de conter a crise financeira através da injeção de mais de 30 bilhões de reais num programa que beneficia claramente empreiteiras, construtoras e incorporadoras e deixa uma migalha para a auto-organização dos movimentos; isso sem falar no caráter eleitoreiro.
Uma política agressiva e nacional de desapropriação de terras vem sendo há muito tempo exigida pelos movimentos sociais na medida em que o combate à especulação imobiliária e à estocagem de terras é um problema muito sério para a solução dos problemas urbanos.
Assim como acreditamos que nossa casa quem garante é nossa luta, acreditamos também que nossa vida é nossa luta; luta por trabalho,pela básica sobrevivência, luta por respeito, pela nossa dignidade, luta por educação (ao lado e apoiando os professores hoje em greve) pública, gratuita e de qualidade, nossa luta por uma cidade justa instaurada numa sociedade que não seja guiada pelo lucro a todo custo.
A área ocupada em Taboão já abriga centenas de famílias que precisam de moradia e que, com disposição de luta, retomam a história das marchas, enfrentamentos, acorrentamentos e greve de fome que marcaram o acampamento Chico Mendes que, apesar de vitorioso, é refém da vagareza e da burocracia estatal.
Abaixo as informações nacionais da jornada e seu manifesto e panfletos:
São Paulo:
- Ato do Movimento dos ambulantes de São Paulo (MASP) contra a repressão aos trabalhadores ambulantes; Rua 25 de março.
Repressão policial, 2 companheiros detidos no primeiro DP da Capital.
Contato - Nildo: 11-80378451
- Marcha de 2.500 sem-tetos da ocupação Pinheirinho (MUST), em São José dos Campos, por mudanças no Plano Diretor e por serviços urbanos.
Contato - Marrom: 12-91763539
- Travamento de avenida no Jd. Pantanal (Zona Leste de São Paulo), pelo Movimento Terra Livre.
Contato - Marcio: 11-74872925
- Ocupação de latifúndio urbano pelo MTST em Taboão da Serra
Contatos - Vanessa: 11-64580165 ou Guilherme: 11-78103196
- Ocupação-denúncia de terreno pelo MTST em Sumaré
Contatos - Ana: 19-81773578 ou Guilherme: 19-78051983
- Minas Gerais:
- Ocupação de terreno em Belo Horizonte pelas Brigadas Populares e Fórum de Moradia do Barreiro.
Contatos - Joviano: 31-91269760 ou Lacerda: 31-97084830
- Bahia:
- Duas ocupações de terrenos em Salvador, pelo MSTB.
Contatos - Ana: 71-88393681 ou Pedro: 71-88086718
- Ceará:
- Ação contra remoções relacionadas à Copa do Mundo 2014 na comunidade Titanzinho, em Fortaleza, pelo MCP.
Contatos - Marcio: 85-88653391 ou Sérgio: 85-91533007
- Amazonas:
- Marcha para Prefeitura de Manaus por política habitacional, com 400 famílias, pelo MTST.
Contato - Julio: 92-82270467
- Pará:
- Ocupação de terreno pelo MTST na Região metropolitana de Belém.
Contato - Silvio: 91-91937724
- Ação do Movimento de Luta Popular (MLP)
Contato - Regina: 91-91806632
- Roraima:
- Ação do MTST em Boa Vista.
Contato - Maria: 95-81187574
- Maranhão:
- Ação do Quilombo Urbano em São Luiz do Maranhão
Contato - Reginaldo: 98-32215280