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Professor indígena é brutalmente assassinado em Santa Catarina

Fonte: Jornalistas Livres

Por Raquel Wandelli

Mais um caso de violência contra liderança indígena leva à morte pesquisador da cultura e da língua Laklãnõ-Xocleng, Marcondes Namblá, no Litoral Norte do Estado

O professor de Educação Indígena da etnia Laklãnõ Xocleng, Marcondes Namblá, 38 anos, é mais uma vítima de violência e assassinato brutal contra indígenas em Santa Catarina. Pai de dois filhos, educador, estudioso e líder expressivo de seu povo, ele foi encontrado desacordado na praia, com marcas de espancamento no amanhecer do primeiro dia do ano, no Balneário de Penha, onde fazia trabalho temporário na praia do Litoral Norte de Santa Catarina, vendendo picolé para aumentar a renda como professor da rede pública estadual e poder desenvolver seus projetos educacionais e culturais.

Socorrido e levado em estado muito grave ao Pronto Atendimento mais próximo, foi internado no Hospital Marieta Konder Bornhausen, no município de Itajaí, a meia hora de Florianópolis, mas não sobreviveu às fraturas cranianas dos golpes que sofreu. Quando chegou ao hospital, os médicos já haviam diagnosticado morte cerebral do professor, que teve os ossos do crânio moídos. Marcas de pneus de carro no corpo mostram que depois de ter recebido muitos golpes na cabeça e no corpo, pode ainda ter sido propositalmente atropelado.

No início da noite de ontem (2/1), as entidades indígenas de Santa Catarina receberam a notícia de que o professor, não resistindo aos graves ferimentos, faleceu no Unidade de Terapia Intensiva do hospital. Missionário evangélico e ex-candidato a cacique (em julho de 2017), Marcondes Namblá pertencia à aldeia Plipatól, no município de José Boiteux, que integra a Terra Indígena Ibirama, no Vale do Rio Itajaí, em Santa Catarina. É um dos sobreviventes de um processo brutal de extermínio iniciado durante a colonização europeia em meados do século XIX, do qual restou praticamente apenas o subgrupo Laklãnõ/Xokleng. O corpo do professor da Escola Indígena de Educação Básica Laklãnõ, pertencente à rede estadual, foi velado no dia 3 de janeiro, na Igreja Pentecostal Adoração a Deus, da Aldeia Coqueiro e o sepultamento ocorreu às 14 horas no cemitério da Aldeia Figueira, em José Boiteux, no Alto Vale do Itajaí, sob forte comoção de familiares e amigos da comunidade.

Com professores do Curso de Licenciatura intercultural Indígena da UFSC, do qual integrou a primeira turma

Membro de uma das famílias tradicionais de seu povo, com vários primos e irmãos pesquisadores como ele, o professor assassinado formou-se em abril de 2015, na primeira turma do Curso de Licenciatura Indígena do Sul da Mata Atlântica, da UFSC, com o trabalho de conclusão de curso “Infância Laklãnõ: Ensaio Preliminar”, no qual apresenta um estudo das brincadeiras típicas das crianças da sua etnia em situação de vida cultural mais próxima do ideal.

Profundo conhecedor da cultura do seu povo, foi também criador e orientador de outros trabalhos de pesquisa em língua Xocleng. Alimentava desenvolver com o primo  Nanblá Gakran, professor universitário, reconhecido especialista em história oral indígena, um projeto de registro escrito da língua Xocleng/Laklãnõ. Também pretendia fazer mestrado em Antropologia e ampliar a escola indígena onde atuava.

As entidades de apoio aos povos originários, que já se mobilizavam em torno de vários grupos de solidariedade ao povo Guarani e Xocleng, reagiram com revolta e consternação, exigindo que as autoridades policiais apurem os culpados e as condições do assassinato. Segundo relatos de observadores aos bombeiros, houve testemunhas da agressão cometida por um homem com uma tábua de madeira. Em novembro, o caso em que  Ivete Antunes, 59 anos, mãe da ex-cacica da aldeia Itaty do Morro dos Cavalos, teve a mão decepada em um ataque a facão no Feriado dos Finados já havia estarrecido as entidades apoiadoras, que organizaram uma rede de voluntários para dar segurança à aldeia e prevenir novos ataques à mão armada que vinham se intensificando desde o início de novembro. No final de novembro, uma manifestação no centro da cidade denunciou as condições de miséria dos índios Xocleng que ficavam alojados embaixo da Ponte, em Florianópolis, quando precisavam vir a Florianópolis em busca de tratamento de saúde ou de emprego. O fato intensificou a luta por uma casa de passagem para os indígenas, projeto já aprovado pela Câmara de Vereadores e nunca cumprido.

No magistério, o enfoque na língua e na cultura de seu povo, de quem é considerado um guerreiro

“É triste e revoltante que esse tipo de ataque contra indígenas no estado se torne normal e invisibilizado. E até agora não há um culpado e ninguém punido por essas crueldades”, diz nota publicada pela Comissão Nhemonguetá.

A líder da aldeia Itaty do Morro dos Cavalos, em Palhoça, a ex-cacica Kerexu Xapyry, afirmou que o Povo Guaraní e todos povos indígenas de Santa Catarina estão em luto e prestam sua solidariedade ao povo Laklãnõ Xokleng. ”Não foi acidente! Não foi afogamento! Ele foi espancado e foi a óbito por fratura no crânio. Foi encontrado na areia da praia frequentada por brancos, nazis, da região ocupada e renominada como Vale Europeu”, desabafou o filósofo Nuno Nunes, que vive com o povo Guarani do Morro dos Cavalos há mais de uma década.

Músico e missionário, o professor Marcondes Namblá deixou alguns registros audiovisuais. Aqui em seleção de Música romântica em língua Xocleng.

Aqui  durante ensaio da banda na Igreja da aldeia Lãklaño Xocleng Plim Pantolo, na Barragem de Ibirama. Vídeo de Laura Pripra, maio de 2017.

Declarações, notas e homenagens

A pesquisadora da FURB, Georgia Fontoura, fez a seguinte homenagem ao professor:

Dizem que a grandeza de um ser humano se traduz na qualidade de seus atos, suas vivências, sementes de mais vida digna por onde vai passando. Marcondes Nanblá , pai, amigo, educador, líder indígena, estudioso e guerreiro na luta pela vida, história e cultura do Povo Laklano Xokleng no Vale Indígena do Itajaí, nos deixa no exemplo de sua jornada terrena o convite e o desafio para continuarmos coletivamente sua tarefa em construção. Sua presença alegre, perspicaz, conhecedora da história e cultura de seu povo nos momentos que juntos vivenciamos nos acompanhará na luta que segue na busca e construção por outros mundos melhores, e ainda possíveis. Este era teu desejo, esta era tua prática, esta era tua luta diária. Segue em paz jovem guerreiro que tantos exemplos deixas para tua família, teu povo, teus amigos e para os que tiveram a benção de contigo conviver, nem que fosse por breves momentos. Te saudamos neste dia quando o sol se ergue no horizonte nos lembrando, que segues em luz, honra e coração tranquilo daqueles que viveram o bom combate! Obrigada pelos valiosos ensinamentos, alegria e sonhos partilhados. Em luto pela tua injusta e desumana vida interrompida nos despedimos aqui agora, na certeza que juntos estaremos em cada ação para a concretização dos teus sonhos para com teu povo e demais povos indígenas no Brasil e além dele. Em respeito e gratidão a ti, tua família e amigos mais queridos expressamos nossos mais sinceros votos de pesar.

Grupo de pesquisa Ethos, Alteridade e Desenvolvimento – GPEAD/FURB

Núcleo de Estudos Indígenas – NEI/FURB

Nota do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena da UFSC:

PERDEMOS MARCONDES

Perdemos todos com a partida brusca, trágica e inadmissível de Marcondes Namblá, ocorrida em 02 de janeiro de 2018. Estamos de luto, sentindo profunda amargura e consternação.

Marcondes, pertencente ao povo Laklãnõ-Xokleng da Terra Indígena Laklãnõ, Alto Vale do Itajaí, integrou a primeira turma do curso Licenciatura Intercultural Indígena da UFSC, cuja formatura ocorreu em abril de 2015. Em seu Trabalho de Conclusão de Curso pesquisou e trabalhou o tema Infância Laklãnõ e a prática dos banhos nos rios, obscurecidos pela construção da Barragem Norte. Em suas Considerações Finais aponta: “Espero que essa reflexão possa contribuir para a construção de um novo pensamento em busca de alternativas para a resolução dessa problemática que hoje está instituída entre os Filhos do Sol e que os Espíritos da Natureza estejam conosco nos direcionando para o caminho certo.”

Marcondes era uma liderança expressiva e ora exercia o cargo de juiz na Terra Indígena. Era exímio falante da língua Laklãnõ e dominava a sua escrita e compreensão. Era professor na Escola Laklãnõ.

Perdemos a criatividade, o brilhantismo, a originalidade e sensibilidade, o empenho, o vigor e os horizontes de Marcondes. Ficamos com a memória, feitos, reflexões, sua alegria, competência e habilidade.

Equipe de coordenação do curso Licenciatura Intercultural Indígena.

UFSC, 03 de janeiro de 2018.

Reitor da UFSC se solidariza com a família de Marcondes Namblá e a Comunidade Indígena

Foto: Agecom/UFSC

O professor Ubaldo Cesar Balthazar, reitor pro tempore da UFSC, se solidariza com a família de Marcondes Namblá, vítima de espancamento no município de Penha, litoral norte de Santa Catarina, e toda a comunidade indígena. No dia 7 de dezembro de 2017, o reitor havia se encontrado com a diretoria da Associação dos Estudantes Indígenas da Universidade Federal de Santa Catarina – AEIUFSC -, quando recebeu um documento das lideranças tradicionais indígenas.

“O primeiro diálogo com o reitor nos deu esperança que haverá continuidade a ideia e projetos do nosso saudoso e eterno professor Dr. Luiz Carlos Cancellier na UFSC e assim tornar-se uma universidade realmente diversificada com os povos indígenas cada vez mais presentes, ocupando seus espaços, dentro e fora da academia.

Queremos compartilhar essa notícia com indígenas e não indígenas, apoiadores da causa da mãe Terra, que hoje se inicia um novo ciclo da AEIUFSC, a qual formalizou com nosso Reitor, parceria e um diálogo recíproco, onde obtivemos êxitos, pois o que buscamos é o equilíbrio entre dois mundos, o mundo indígena e o mundo não indígena (Zug, Juruá, Karaiwá, fog). Acredita-se que no futuro próximo os novos estudantes indígenas possam saber que a AEIUFSC esteve e sempre estará buscando o melhor para o bem viver dos estudantes indígenas do Brasil.”

“Que bom que vocês se organizaram, que foi feita a Associação, pois no mundo do branco uma pessoa sozinha não tem força e vocês estão no caminho certo por estarem se organizando. Podem contar comigo”, disse à época o reitor, agora considerado um Vágdjó pelas lideranças indígenas.

“Que Nhanderú o guie pelo caminho da sabedoria sempre, obrigado!”, ratificou o conselheiro Sérgio Karai, e finalizou: “”Nós estudantes indígenas resistimos, juntos somos mais fortes.”

#Guarani
#Kaingang
#Laklãnõ/Xokleng
#Sateré_Mawé
#Munduruku

Participaram do encontro a SAAD – (Secretarias de Ações Afirmativas e Diversidade) com o professor Marcelo Tragtenberg; Pro-reitoria – PRAE, representado pelo professor Pedro Manique Barreto; e a coordenadora do curso de Medicina, professora Simone Van De Sande Lee.

One comment

  • Luísa Mahin

    Marcondes querido descanse desse mundo tão intolerante e desigual sabendo que você fez sua parte. Que semprr esteve ao lado do seu povo. E aos que ficam ainda nos resta lutar para combater as desigualdades, promessas e leis não cumpridas pot este sistema facista que são os poderes brasileiros. Precisamos dos jovens, homens e mulheres corajosos que entendem o quanto o governo burguês tem contribuído para o aumento das desigualdades nesse país. Ontem enviei uma mensagem ao meu grande amigo Guilherme Boulos sobre sua possível candidatura. Salientando que essa possibilidade não tem a ver comigo ou qualquer outra pessoa. Logo, primeiramente é uma decisão particular dele, pois a vida na política não há de se encontrar pessoas honestas, que lutam bravamente pelo povo e muitas das vezez é viver sem esperar e ao mesmo tempo esperando esperança de que ainda tem jeito. O fato que a candidatura dele e da Avila não deve ser encarada comi ataque ai PT, vingança ou intrigas, mas sim que a esquerda não é uma pessoa chamada Lula.A esquerda somos nos que seja ideologicamente ou não lutamos e não aceitamos as decisões burguesas de nossos governadores. Precisamos de acabar com o atual sistema. Quero sim revolução por cada morto e preso injustamente por este sistema que quem escolhe quem vai pagar o pato é quem tem mais dinheiro. Não da para ficar no muro. Eu disse ao Guilherme amigo é hora de decidir. É hora de mistrar porque o ocupamos?. É hora de mostrar de que lado você está. Eu não quero amigo influenciar sua decisão, pois desde o meio do ano passado venho falando para todos sobre essa possibilidade e desde o começo vc se mostrou contrário. Depois acabei deixando essa ideia para trás. Mas fui percebendo que a pissibilidade vem aumentando. E agora entendo que se opitar por isso é porque entende que além de um grande militante vc é um grande líder. Entendo que se optar por se candidatar é também entendet que seu patamar agora é outro. O inimigo agora é outro. O movimemto agora é outro. Mais maduro. Mais pronto. Precisamos, precisamos do Douglas Belchior, da Samia, do Leo Sakamoto, precisamos de nossos militantes lá, trabalhando por nos e evitando fadiga para nos. Mas se optar por não se candidatar estamos juntos.

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