Polícia mira movimentos sociais

Fonte: Jornal Extra Classe

Por Paola Oliveira

Foram cumpridos mandados de busca até mesmo em entidade que acolhe estrangeiros e crianças em situação de risco

Entre os materiais apreendidos na Ocupação Pandorga estão garrafas PET com plásticos recicláveis, que foram divulgados em segmentos da grande imprensa como coquetéis molotov
Foto: Igor Sperotto

 

Érebo significa anarquia, em grego, e este é o nome da Operação que aconteceu no dia 25 de outubro quando foram cumpridos dez mandados de busca e apreensão em Porto Alegre e na Região Metropolitana.  Segundo a Polícia Civil, a operação investiga suspeitos de participação em ataques contra órgãos públicos, viaturas policiais, bancos, empresas, sedes de partidos políticos e até a um tanque de guerra do exército. Segundo advogados ligados aos movimentos sociais, que preferem não serem identificados, e que conversaram com o Extra Classe, a polícia teria dito que a operação partiu de denúncia anônima, informação negada pelos responsáveis pela operação.

As investigações começaram em 2016, depois de alegada tentativa de explosão de viaturas na 1º DP no centro de Porto Alegre. Todos os inquéritos estão na vara do júri, pois há duas tentativas de homicídios tanto na delegacia quanto numa loja da Renault quando foram colocados e jogados explosivos durante uma manifestação de rua.  Segundo o delegado Paulo Cesar Jardim todo o processo foi acompanhado em parceria com o Ministério Público, representado pela polícia civil, mas o judiciário entendeu que ainda não era pertinente a prisão, mas concedeu mandado de busca e apreensão.

“São possíveis envolvidos, alguns ligados diretamente, outros simpatizantes.  Nós encontramos livros, documentos e material probatório que nos leva a tal convicção”, afirma Jardim. Sobre o tempo de investigação e perícia do material, o delegado lembra que não há um prazo definido, o tempo é o que se faz “necessário para a apontar e robustecer as provas e apontar a autoria”. Os crimes atingem formação de quadrilha e tentativa de homicídio.

Na quinta, dia 26, seis advogados de defesa das ocupações e entidades que foram alvo da Operação estiveram na 1ª DP para conversar com o delegado. Para não sofrerem retaliações pediram para não serem identificados, mas cabe lembrar que todos fazem parte do grupo de advogados que trabalham junto aos direitos humanos na defesa dos movimentos sociais.

O mandado foi em busca de livros, revistas, fanzines, Cds, Dvds, PCs, pendrives e celulares. “Já fizemos o pedido de liberação de celulares, pois, alguns estrangeiros, que trabalham e moram nestes espaços, não estavam no Brasil na época que aconteceram tais fatos e foram confiscados seus aparelhos”, disse a advogada.

O que mais intriga o grupo de advogados foi a invasão de casas de pessoas com nenhuma vinculação com o movimento anarquista. “Houve uma denúncia anônima, alguém deixou um Cd na porta da delegacia, com o nome e endereço de pessoas, relatou o delegado na reunião que fez conosco”. O delegado não confirma esta informação.

O Delegado Paulo Jardim nega que operação tenha partido de denúncia anônima

O Delegado Paulo Jardim nega que operação tenha partido de denúncia anônima

Foto: Igor Sperotto

Criminalização do pensamento

Para a advogada está clara a criminalização do pensamento anarquista e dos movimentos sociais organizados. “Não há nenhum indiciamento, nos inquéritos não há nomes”, lembrou. A advogada de defesa lembra ainda que o movimento anarquista tem ideologias diferentes, “foi tudo colocado, junto, sem distinção”.

No mesmo dia, 26, a Federação Anarquista Gaúcha realizou uma coletiva para a imprensa e publicou uma nota afirmando que “o que ocorreu é mais um capítulo da perseguição política sistemática aos movimentos sociais e querem colocar todo anarquista e militante de movimentos sociais como baderneiro e criminoso”.

Nos próximos dias os advogados vão entrar com ações, realizar reuniões e devem questionar a forma como essas entidades foram expostas na mídia e na opinião pública. “Há entidades sociais que têm trabalhos internacionais e as reportagens que saíram na imprensa chamaram estes grupos de organizações criminosas, terroristas e quadrilhas”, disse a advogada de defesa.

Escola de arte atua com crianças e estrangeiros

Pandorga também atende, há dois anos crianças da Vila Cabo Rocha que são de uma comunidade de origem quilombola

Pandorga também atende, há dois anos crianças da Vila Cabo Rocha que são de uma comunidade de origem quilombola com escola de circo e capoeira

Foto: Igor Sperotto

Entre os locais que a Operação Érebro atingiu está Ocupação Pandorga. É um centro cultural e escola de arte educação que acolhe estrangeiros e crianças em situação de risco. Localizada no bairro Azenha há escola de circo e capoeira.  Atendem, há dois anos, crianças da Vila Cabo Rocha que são de uma comunidade de origem quilombola.

Para a professora de história e voluntária da Ocupação, que será chamada de Nora, seu trabalho de arte e educação tem como base Augusto Boal e Paulo Freire. “Aqui a proposta é de ocupação cultural em um antigo depósito da prefeitura de Porto Alegre. Estamos bem preocupados, principalmente como fomos expostos na mídia, colocaram-nos como terroristas internacionais, isso é uma acusação muito grave”. Ela lembra ainda que as garrafas plásticas que foram aprendidas como possíveis coquetéis molotovs são usadas para reciclagem de lixo seco. “Dentro só tem plásticos e rótulos de refrigerantes”.

Instituto Parrhesia Erga Omnes, com sede na Cidade Baixa, onde ficava a antiga sede da Federação Anarquista Gaúcha

Instituto Parrhesia Erga Omnes, com sede na Cidade Baixa, onde ficava a antiga sede da Federação Anarquista Gaúcha

Foto: Igor Sperotto

Outra entidade investigada foi o Instituto Parrhesia Erga Omnes, com sede na Cidade Baixa, onde ficava a antiga sede da Federação Anarquista Gaúcha.  Segundo o diretor do Instituto Orlando Vitor, o Parrhesia tem respaldo internacional é associado à Abong – Associação Brasileira das Organizações Não Governamentais, Fórum Social Mundial e Mídia Livre; trabalha com movimentos sociais, povos indígenas, população de rua, carcerária e portadores de HIV.

Para a advogada de defesa, está claro a criminalização dos movimentos sociais e principalmente do conhecimento. “Sobrou até para a Universidade Pública e os cursos de humanas, pois nas matérias publicadas, os supostos envolvidos fazem parte de cursos de mestrado e doutorado de antropologia da UFRGS”. Ela afirma que não há ainda nenhum nome nos inquéritos, e que a informação publicada da mídia foi apressada e equivocada.

A arte educadora Nora ressalta que espera que tudo seja esclarecido, para que possa voltar a trabalhar com tranquilidade com às crianças e que os envolvidos sejam punidos de forma justa como prevê a lei.

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