MTST

‘Matheusa Passareli é revolução e amor’, diz amiga de estudante executada no Rio

Durante uma semana, familiares e amigos tentaram encontrar a jovem que estava desaparecida; para amigos, Matheusa Passareli era uma multiartista e apaixonada pela militância LGBTQI

Foto: reprodução Instagram

“Matheusa era uma pessoa muito carinhosa, muito afetuosa, que acabava conquistando todo mundo, mesmo. O jeito dela era muito cativante, era um carinho muito forte. Apesar disso ela não deixava de dar as opiniões, de fazer suas pontuações críticas, mas sempre com muito cuidado”, é assim que Tertuliana Lustosa, 21 anos, fala da amiga com quem dividiu os três primeiros anos de universidade, desde o evento de recepção de calouros da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), em 2015.

Matheusa Passareli Simões Vieira, carinhosamente chamada de Theusinha, era negra, periférica e não-binária, quando a pessoa não se reconhece no gênero masculino ou feminino. Estudante de Artes Visuais na Uerj, era apaixonada pelo mundo artístico e das passarelas, tendo se tornado bastante conhecida por LGBTs do meio. Durante a infância e adolescência, ela viveu no município de Rio Bonito (RJ), onde não tinha tantas oportunidades quanto a capital fluminense podia lhe dar. Por isso, aos 18, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro.

Ativista LGBT, ela participava de dois coletivos artísticos: ‘Seus putos’, formado por LGBTs, e ‘Xica Manicongo’, ambos ao lado da amiga Tertuliana. “Conviver com ela era muito potente, a gente produzia muito artisticamente. Para mim, que fiz parte de dois coletivos de arte com ela, era inovador, porque ela sempre estava trazendo aprendizagens, sempre compartilhando isso com as pessoas”, conta Lustosa, que dá aulas de literatura.

O porte de Matheusa rendeu a ela mais de uma oportunidade de estar na passarela: ela desfilou para o estilista Fernando Cozendey e na SP Arte deste ano.

Tertuliana e Matheusa em performance | Foto: Arquivo pessoal.

Amorosa e divertida, sempre disposta a ajudar e expressar energias positivas, é assim que os amigos lembram de Matheusa. “A Theusinha era um ser humano incrível, muito bondosa, era a de nós todas a mais centrada, a mais sensata, a mais sábia. Ela era extremamente estudiosa, dedicada à academia. O cuidado que ela expressava com todas nós, o carinho e amor infindável que a Matheusa tinha por todas era algo muito único. Tínhamos conversas infinitas, todos os momentos eram muito alegres e muito reflexivos também, porque as Passareli, Matheusa e Gabe [irmã de Matheusa], tem uma sensatez inigualável”, conta Vera Lúcia, 21 anos, integrante do movimento de performance constante Frozen2000.

Em entrevista à Ponte, Tertuliana releva que ela e Matheusa começaram o período transitório juntas, logo no começo da universidade. “Ela chegou com o cabelo bem curtinho, algumas discussões ela só passou a ter quando estava aqui; então ela deixou o cabelo crescer, a questão de gênero começou a fluir, o modo de se vestir. Eu transicionei muito no início. Cinco meses depois de chegar eu comecei a minha transição e ela sempre foi maravilhosa, no sentido de me apoiar, de me escutar, de me compreender”, lembra. “Foi uma das melhores experiências possíveis estar ao lado dela na Uerj, porque é uma universidade muito transfóbica, onde eu já sofri muitas coisas e ela sempre me apoiando”, desabafa.

Matheusa durante desfile | Foto: Reprodução Instagram.

Vera conta que Matheusa acreditava na arte como uma ferramenta de transformação social e que aquilo que defendia fez com que ela levasse a vida como uma performance.

Ela dedicava a maior parte do tempo dela em estudos e reflexões relacionados ao questionamento de gênero e principalmente ao questionamento de raça. A militância de raça vinha antes de qualquer coisa. [Ela valorizava muito] militar ser uma bicha preta, uma bicha não padronizada. Ela expunha muito isso em todos os seus atos. O tempo que ela esteve respirando, ela viveu uma performance artística. Ela era uma artista incrível. Escrevia, pintava e tatuava como ninguém”, relembra a amiga.

Confirmação e investigação da morte

O desaparecimento de Matheusa aconteceu exatos 50 dias depois da execução de Marielle Franco. A confirmação da morte da estudante, LGBT assim como a vereadora, só chegou dias depois, quando a jovem já constava na lista da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) e estampava as redes sociais com imagens de amigos e familiares, que se mobilizaram na esperança de encontrá-la.

Em nota à Ponte, a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, por meio da assessoria de comunicação, informou que “fica confirmada a morte de Matheus Passareli. Ele foi assassinado na madrugada de domingo (29/4), ao sair de uma festa no Morro do 18, em Água Santa, na Zona Norte do Rio. As investigações prosseguem com diversas diligências objetivando a identificação da autoria do crime e posterior pedido de prisão. Não há outras informações passíveis de divulgação sem que as diligências policiais sejam prejudicadas”.

Em uma rede social, a irmã da vítima, Gabe Passareli, fez o comunicado oficial da execução. “Sinto muito. Há uma semana atrás recebemos a noticia que minha irmã tinha desaparecido ao tentar sair de uma festa no Bairro Encantado, Piedade, Rio de Janeiro. Quando estávamos em São Paulo, Matheusa havia comentado sobre esse trabalho que ela tinha para fazer na festa, que seria uma tatuagem na aniversariante. O processo-performance de tatuagem não aconteceu e como noticiamos no domingo passado, a Matheusa saiu do evento e não voltou mais. Quanto ao que aconteceu no evento em si, a Delegacia de Descoberta de Paradeiros está recebendo os depoimentos dos que estavam presentes”, começa o texto de despedida de Gabe.

“A partir de certo momento, descobrimos que não poderíamos circular mais pelo bairro do acontecido desaparecimento e com isso, precisávamos zelar pela segurança daqueles que estavam nas ruas implicados em encontrarem a Matheusa. Tivemos que parar as buscas e concentrar as energias nas investigações da instituição. Segundo informações, minha irmã foi executada ao entrar em uma das comunidades do bairro. Seu corpo, também segundo informações colhidas pela DDPA, foi queimado e poucas são as possibilidades de encontrarmos alguma materialidade, além das milhares que a Matheusa deixou em vida e que muito servirão para que possamos resignificar a realidade brutal que estamos vivendo”, conta a irmã de Matheusa em outro trecho do texto postado em redes sociais.

Amiga da vítima, Vera Lucia destaca a crueldade do assassinato e lembra que Matheusa, sempre batalhadora, estava sem emprego formal e passava por dificuldades financeiras:

Foi um susto muito grande perder ela de uma forma tão brutal, tão violenta. Em um momento tão frágil, ela foi executada e queimada. O fato dela ter sido queimada é uma das piores coisas, pois não vamos poder enterrá-la. O mínimo de dignidade que podiam dar a minha amiga era enterrá-la, mas infelizmente ela foi queimada. Ela vai continuar viva na irmã dela, na Gabe. Perder alguém como Matheusa é perder uma heroína do mundo da arte, do mundo da moda, do mundo pé no chão. É perder uma irmã, perder uma amiga, perder um amor, perder uma ativista LGBTQI. Ela fez muito por todas nós. Ela ecoou as nossas vozes. E vamos continuar fazendo isso: ecoando a voz dela pra todo sempre”.

Em nota, Rafael Gomes, da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual do Rio, informou que a Coordenadoria “lamenta profundamente a morte da estudante trans Matheusa Passareli. Esperamos que as investigações apontem o real motivo do crime. Os casos de denúncia à Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual aumentaram mais de 100% nesses primeiros meses do ano”.

Marcas da violência

Na noite do domingo, 6/5, Maria Clara Araújo, estudante de pedagogia e primeira travesti a ingressar na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que era muito amiga de Matheusa, fez uma série de postagens em seu Instagram.

Theusinha tinha a minha idade, ela tinha muitos e muitos sonhos, e eu fico muito triste. Por favor, nunca esqueçam e façam questão de pontuar que a minha amiga tinha nome e sobrenome. Matheusa Passareli vai continuar vivendo na vida de cada pessoa que foi atravessada por ela. Na vida de cada pessoa. Foi um processo muito duro receber a notícia, continua sendo, mas eu me lembro muito de como a minha amiga queria que a gente seguisse a vida, porque o nosso seguir a vida é um ato político. Eu só desejo que a gente consiga ficar bem frente a isso tudo. Realmente, eu espero que a gente continue cuidando uma da outra, que a gente dê suporte, cuide, que a gente proteja”, desabafou Araújo.

Grafite com Linn da Quebrada e as vocalistas de As Bahias e a Cozinha Mineira, em São Paulo | Foto: Reprodução Instagram

Outras artistas, em sua maioria LGBT, prestaram homenagens à Matheusa, como é o caso das cantoras Mahmundi, Karol Conká, Linn da Quebrada e Raquel Vírgina, vocalista do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira. Em sua postagem, Raquel lembrou que já foi ameaçada de morte há dois anos. “Há cerca de dois anos um homem ameaçou me matar e queimar meu corpo depois de uma festa na quadra da Mangueira no Rio. Quando li a história da Matheusa (eu não conhecia ela) que foi assassinada queimada, imediatamente pensei em quantas vezes nossas histórias são marcadas por violências extremas, por traumas”, dizia a postagem de Raquel.

Um ato ecumênico em homagem à Matheusa, intitulado “Viva Theusinha”, está marcado para acontecer na Capela Ecumênica da Uerj nesta quarta-feira, dia 9/5, às 18h.

 

Por Paloma Vasconcellos

Fonte: Ponte Jornalismo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

CAPTCHA