MTST

Guilherme Boulos: Sem-Teto, sem grana e com ideias para virar o Brasil à esquerda

Ilustrado por Cassio Tisseo

Cerca de 300 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto ocuparam no dia 19 de julho de 2003 um terreno de 170 mil metros quadrados em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. A área pertencia à Volkswagen. Aos poucos, o acampamento foi crescendo, chegando a receber 4 mil pessoas, e a imprensa começou a acompanhar de perto o caso, afinal se tratava de uma das primeiras manifestações populares no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que havia começado em janeiro, e havia uma grande expectativa sobre como seria o comportamento do PT na condição de vidraça diante dos movimentos sociais, parceiros históricos até então — ainda mais na terra em que o agora chefe de governo havia feito sua carreira política.

No dia 23, um dia após a obtenção da reintegração de posse pela Volks, um grupo de jornalistas conversava com a líder do movimento, Camila Alves, sobre como seria a resposta dos Sem-Teto, até que um tiro à queima-roupa atingiu o fotógrafo Luis Antonio da Costa, conhecido como La Costa, que estava no local a serviço da revista Época. Ele morreu a caminho do hospital. As investigações mostraram que o crime nada tinha a ver com o acampamento: eram dois ladrões que haviam roubado um posto de gasolina nas redondezas e, ao ver La Costa com duas câmeras no peito, tentaram roubá-lo.

O acampamento, porém, continuou mobilizado, e dias depois o MTST obteve a suspensão da reintegração. Foi naquele dia que pela primeira vez o nome de Guilherme Boulos apareceu falando em nome do movimento, acusando a montadora e os então prefeito, William Dib (PSB), e governador, Geraldo Alckmin (PSDB), de intransigência e dizendo que os acampados não sairiam. “Aquelas famílias estão lá, em condições precárias, porque não têm outra possibilidade. O objetivo do movimento foi pacífico em todas as ações e qualquer massacre será responsabilidade da polícia e do Estado”, afirmou à Folha. A ocupação terminaria em agosto, de forma relativamente pacífica, e o nome do líder Sem-Teto se tornaria presença constante para falar em nome dos trabalhadores que, segundo ele, são vítimas da especulação imobiliária.

Hoje, passados 15 anos, Guilherme Castro Boulos é o candidato do PSOL à presidência da República. Um líder popular nascido em berço relativamente confortável: seu pai, Marcos Boulos, é um renomado infectologista professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ele mesmo estudou na USP, Filosofia, e lá obteve, dois anos atrás, um mestrado em Psiquiatria, cuja dissertação analisou pacientes com sintomas depressivos em acampamentos de Sem-Teto — um jeito de unir a academia à prática diária.

Boulos evita falar sobre sua vida pessoal. Sabe-se que é casado com uma militante do MTST e tem duas filhas, e que residiu por algum tempo em acampamentos em Taboão da Serra, na grande São Paulo. Ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), informou como único bem um veículo no valor aproximado de R$ 15 mil.

Seu nome se tornou mais conhecido a partir de junho de 2013, quando o MTST se aproximou do MPL (Movimento do Passe Livre) e engrossou as primeiras manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus e os gastos excessivos com as obras da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos do Rio. Fazia sentido, visto que a pauta por mais moradias populares ia ao encontro das queixas de quem começou pedindo “hospitais e escolas padrão Fifa”, como se tornaria comum na sequência dos protestos. Em 2014, a menos de um mês do início do Mundial, o MTST organizou uma passeata com cerca de 15 mil pessoas que andou pela Marginal do Pinheiros, na zona sul de São Paulo. “Várias categorias pelo país começam a se perguntar: ‘Empresário ganhando, empreiteiro ganhando, e onde fica a gente? Queremos a nossa fatia desse bolo’”, disse Boulos no dia. O movimento acusava, entre outras coisas, a retirada de pessoas do lugar onde foi construída a Arena Corinthians, palco da abertura da Copa.

Também em 2014, Boulos ganhou espaço como colunista da Folha de S.Paulo. Já em seu primeiro texto, defendeu a postura de ocupações do MTST e disse que a receita para acabar com elas era “combater a especulação imobiliária com regulação de mercado, tirar o controle da política urbana das mãos das grandes empreiteiras e desenvolver uma estratégia de desapropriação de terras que recupere a capacidade do poder público de planejar a política habitacional“. Ocupou o espaço no jornal por quase três anos, até março de 2017, alternando críticas a medidas tomadas pelos governos do PT com ataques ao processo que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O alinhamento com o discurso de que houve um golpe contra Dilma aproximou Boulos dos partidos de esquerda, mas ele se manteve relutante a propostas de filiação até março deste ano, quando enfim acertou sua entrada no PSOL, já com a garantia de que seria candidato à Presidência. Não sem polêmica: parte do partido, que é dividido em diversas tendências, defendeu que sua candidatura desobedecia ao processo democrático interno do partido, que tinha outros quatro pré-candidatos, entre eles a líder indígena Sônia Guajajara, que virou vice na chapa.

Há uma máxima que ficou famosa durante a ditadura militar: “A esquerda só se une na cadeia”, numa referência às divergências incessáveis entre os diversos grupos que militavam contra o regime. Pois bem: no século 21, nem com cadeia. O economista Plínio de Arruda Sampaio Jr, filho do ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio, candidato do PSOL a presidente em 2010, chegou a escrever textão no Facebook acusando Boulos de ser uma tentativa de interferência de Lula no partido, referindo-se à presença do ex-presidente, que ainda estava solto, no ato que selou a entrada de Boulos na legenda. Em sua página, Plínio Jr. pede votos a vários candidatos do partido em eleições parlamentares, mas não a Boulos.

O candidato, por sua vez, nunca tentou se afastar da figura de Lula, ao contrário: no dia da prisão do ex-presidente, foi a São Bernardo de Campo para encontrá-lo e ser saudado, ao lado de Manuela D’Ávila, como futuro líder da esquerda no país. Dias depois, com Lula já na Polícia Federal, em Curitiba, participou com militantes do MTST de uma rápida invasão ao tríplex no Guarujá que é atribuído ao líder petista como prova do crime de lavagem de dinheiro.

No seu plano de governo, com mais de 200 páginas, Boulos defende pautas tipicamente de esquerda, como a adoção de um sistema de progressividade tributária, com taxação de grandes fortunas, de heranças e de lucros e dividendos dos empresários. Reforça a defesa da reforma urbana, de forma a acabar com o déficit de moradias, além de estimular a recuperação da economia por meio de incentivo à indústria nacional e à agricultura familiar. Também estão em pauta questões identitárias, como a valorização da mulher, a luta contra o racismo e a garantia de direitos para a população LGBTI. No último Datafolha, Boulos aparece com 1% das intenções de voto.

Guilherme de Castro Boulos
Formação: Bacharel em Filosofia pela USP, com especialização em Psicologia
Idade: 36
Patrimônio: R$ 15.416,00
Trajetória (partidos): PSOL
Vice: Sônia Guajajara (PSOL)

 

 

Por Fernando Cesarotti

Fonte: Vice Brasil

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

CAPTCHA