“Fala Comigo”, mais um retrato de que o cinema brasileiro é possível

Fonte: Portal Vermelho

Ambientado nas crises existenciais da classe média temos uma trama bem costurada que fala de um amor “quase” impossível, que perturba e levanta questionamentos, oxigenando o gênero romance no cinema brasileiro.

Foram 10 anos mexendo no roteiro até que Felipe decidiu colocar a mão na massa para a realização do seu primeiro longa. É um filme de baixo orçamento, cerca de 900 mil reais, todo ele feito através do Fundo Setorial do Audiovisual, e muito envolvimento da equipe.

Na história, o jovem de 17 anos, Diogo (Tom Karabachian), vive ligando para as pacientes de sua mãe, a psicóloga Clarice (Denise Fraga). Ao ouvir suas vozes, ele se excita e se masturba. Em uma das vezes algo sai do controle e ele acaba se aproximando de Ângela (Karine Teles), uma paciente de 40 anos, recém separada. A partir daí eles vão viver um grande amor.

O filme tem causado polêmica por onde passa, algumas pessoas enxergam como pedofilia, outras uma relação abusiva. Mas como dizem alguns psicólogos, não há pedofilia, e se tem abuso na relação fica evidente que não parte da mulher mais velha e experiente, mas sim do garoto.

Parece que Sholl previu esses questionamentos e brilhantemente construiu um clímax tenso e interessante no diálogo entre Clarice e Ângela quando ela descobre que seu filho está tendo um caso com sua paciente. E vem uma reflexão: Um profissional pode suportar este profissionalismo quando ele é confrontado com algo tão pessoal? Isso dá um bom debate.

O filme também aborda a solidão com muita ênfase. Ela aparece representada pela masturbação, abandono, desgaste conjugal, na personagem mirim, a irmã caçula de Diogo, que mesmo tão menina já carrega tantos medos mostrando que não é tão fácil se tornar adulta nesse mundo complexo e ficar sozinha.

A interpretação de Karine Teles é brilhante, aliás, ela vem abocanhando prêmios por onde passa. A estreia de Tom no cinema também é promissora e Denise Fraga mostra por que é uma atriz completa. Um ponto fraco é o pai de Diogo, interpretado por Emílio de Melo. Parece que o diretor não conseguiu encaixá-lo na trama e vai abandonando-o pelo caminho.

O filme tem uma bela montagem, a câmera ágil, fotografia e som afinadíssimos, tudo para deixar a obra impecável. Felipe Sholl opta muitas vezes pelo uso das cenas minimalistas, evitando explicar demais, isso ajuda muito no ritmo.

Hoje podemos dizer que temos um leque de filmes tão consistentes e belos como os argentinos. Os nossos hermanos caíram no gosto dos brasileiros, principalmente se tem Ricardo Darín no elenco. Mas a nossa recente safra não fica a desejar nada a ninguém, temos “Aquárius”, “Casa Grande”, “Que Horas ela Volta”, “O Palhaço”, uma infinidade de filmes interessantes.

E, ainda sobre a música dos Titãs: “a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade”… mesmo com pouco grana, “Fala Comigo” fala para todo mundo que o cinema brasileiro é possível.

Assista ao trailer: 

 

*Vandré Fernandes é cineasta

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