Em defesa do VAMOS: Por que temer o debate?

Artigo originalmente publicado pelo Nexo Jornal

Por Josué Rocha e Natalia Szermeta*

Grupo que reúne membros de diversas organizações e partidos de esquerda propõe plataforma de discussão para criar um programa comum

Foto por Nacho Doce, para Reuters

No dia 26 de agosto aconteceu em São Paulo o lançamento do Ciclo de Debates Vamos, organizado pela Frente Povo Sem Medo. A atividade contou com a presença de Sonia Guajajara, (liderança indígena da APIB), Dríade Aguiar (ativista do Fora do Eixo/Mídia Ninja), Eduardo Suplicy (ex-senador pelo PT), Guilherme Boulos  (coordenador do MTST, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Luiza Erundina (deputada federal pelo PSOL e do movimento Raiz Cidadanista), Marcelo Freixo (deputado estadual pelo PSOL/RJ) e o jornalista Leonardo Sakamoto, além de mais de 500 pessoas que estiveram no Largo da Batata para discutir os rumos do Brasil.

Perto de completar dois anos de seu lançamento, a Frente Povo Sem Medo entende que, para além de ser um polo de unidade e mobilização, é importante avançar na construção de um programa que enfrente os desafios atuais e seja capaz de contribuir para a reorganização da esquerda no país nos próximos anos.

De onde viemos?

Em seu lançamento, em outubro de 2015, a Frente Povo Sem Medo, foi o resultado do amadurecimento de uma articulação iniciada ainda em 2014 após a reeleição de Dilma Rousseff. Naquela ocasião, já percebíamos um avanço conservador no país representado pelos setores que se agruparam em torno da candidatura de Aécio Neves.

As concessões de Dilma ao mercado financeiro, ampliando o ajuste sobre os mais pobres, também foram alvo de críticas e motivo de mobilizações. A Frente Povo Sem Medo reuniu então vários setores que não deixaram de enfrentar a direita nas ruas, porém que não se calaram diante das políticas erráticas do governo. Com o avanço da agenda golpista, a Frente Povo Sem Medo não hesitou um só momento em se posicionar contra o golpe, não apenas verbalmente, mas sobretudo com a construção de mobilizações em todo o país, grande parte delas em unidade com a Frente Brasil Popular.

Consolidado o golpe, mais uma vez a Povo Sem Medo esteve na linha de frente das lutas pelo “Fora, Temer”, protagonizando momentos importantes como a marcha dos 100 mil, em setembro de 2016 em São Paulo, e mobilizações e enfrentamentos nos arredores da casa do presidente golpista.

Quando Temer, amparado pelo Congresso mais reacionário da história, iniciou seu plano de governo, propondo PEC do teto dos gastos públicos, reforma trabalhista e reforma da previdência, a Frente participou da construção de dezenas de mobilizações, como a expressiva greve geral de 28 de abril e batalha de Brasília de 24 de maio.

Nessa curta história, a Povo Sem Medo assumiu seu papel no processo recente de resistência no Brasil. Ao propor a articulação entre atores políticos nem sempre habituados a sentar juntos à mesa, como a CUT e movimentos ligados ao PSOL, por exemplo, a frente fugiu da obviedade e aceitou o desafio de construir novas pontes na esquerda do país. Talvez por isso tenha sido alvo de críticas daqueles que preferem defender posições monolíticas e que não são capazes de reconhecer a importância de diálogos na diversidade política.

Para onde Vamos?

Nas últimas semanas, após o lançamento da plataforma Vamos, pautados por notícias de jornal, alguns interlocutores se apressaram em classificar a iniciativa como a criação de um novo partido anti-Lula. Não se deram ao trabalho nem ao menos de verificar a história recente da frente e seus principais documentos públicos.

Em primeiro lugar, é importante esclarecer que a proposta de um ciclo de debates não está pautada simplesmente pela agenda eleitoral. Ainda em novembro de 2016, reconhecendo a profundidade da crise econômica, a grave crise política e de representatividade no país, a Frente Povo Sem Medo, em seu encontro nacional, lançou duas iniciativas: a construção dos Territórios Sem Medo, proposta de enraizamento em bairros das periferias, e o ciclo de debates com objetivo de pensar um programa para o país.

Em declaração política da reunião do operativo nacional de março de 2017 esses dois pontos foram reafirmados.

Somente aqueles que se acostumaram a pensar a política de quatro em quatro anos podem reduzir um ciclo de debates que pretende contribuir para a reflexão da esquerda a uma jogada eleitoral. Para esses fica o alerta de que para chegarmos em 2018 é preciso primeiro vencer nas ruas 2017.

Em segundo lugar é preciso destacar que, apesar de críticas aos limites dos governos de Lula e Dilma, as organizações da Frente Povo Sem Medo se colocaram de modo inequívoco contra a perseguição judicial a Lula, defendendo seu direito legítimo de concorrer às eleições. O próprio MTST esteve presente com milhares de manifestantes no ato chamado na Av. Paulista uma semana após a absurda condenação do ex-presidente pelo juiz Sérgio Moro.

Por último, é interessante destacar que a iniciativa dos Territórios Sem Medo, lançada em abril de 2017 e desenvolvida em locais como Capão Redondo, Itaquera e tantos outros no país, apesar de tão importante quanto o ciclo de debates, passou despercebida pelos críticos de plantão, interessados em promover disputas sectárias na esquerda. Talvez porque alguns já não considerem a construção de um trabalho de base consequente em bairros da periferia um tema tão relevante.

Vamos juntos

Polêmicas à parte, as duas primeiras semanas do Vamos mostraram a importância desse ciclo de debates no momento atual. Já são milhares de propostas no site nos seis eixos temáticos, 18 novas cidades que se inscreveram para realizar debates presenciais nos quatro cantos do país e inúmeros pedidos de participação.

Não temos qualquer pretensão de diminuir as importantes experiências da esquerda nos últimos 30 anos no país, mas queremos ajudar a pensar o que faremos nos próximos 30 anos.

Num momento de agravamento da crise econômica, em que as saídas conservadoras de retirada de direitos ganham força; num momento pós-golpe em que a democracia segue abalada e o conservadorismo avança; num momento em que a desigualdade cresce e que a exploração sobre os mais pobres, mulheres, negros, negras e LGBTs se intensifica; num momento em que a violência no campo e na cidade nos intimida e que nossos jovens negros morrem na periferia, não podemos ficar calados. Precisamos colocar a mão na massa e discutir os rumos do Brasil.

Sabemos que essa tarefa não pode ser feita sem unidade entre os que lutam. Por isso convidamos todas e todos a participarem do ciclo de debates nas redes e nas ruas. Vamos, sem medo de mudar o Brasil!

 

* Josué Rocha e Natalia Szermeta são militantes do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e da Frente Povo Sem Medo.

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