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Como o feminismo ajuda indígenas a superar um trauma histórico

Suas ancestrais foram assassinadas e estupradas mas, hoje, elas se organizam para trocar experiências e participar da construção de políticas públicas.

Leonice Tupari, coordenadora da Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia | Foto por Gabriel Uchida/VICE

Feminismo e empoderamento feminino é uma discussão atual não só nas cidades mas também em muitas aldeias da Amazônia brasileira. Isso acontece graças à AGIR, a Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia. A entidade foi criada em 2015 para que as mulheres pudessem compartilhar experiências entre culturas distintas e para que suas vozes fossem ouvidas. Hoje o coletivo ultrapassa as 500 integrantes em um estado que tem cerca de 15 mil indígenas de mais de 50 etnias diferentes. Contudo, a luta da AGIR vai além dos limites de Rondônia.

Além dos encontros e reuniões realizadas, a associação também participa de conselhos de políticas públicas, incentiva e mantém a troca de experiências com indígenas de outras regiões e participa de manifestações pelo país. “As brancas têm uma luta muito grande porque querem ser protagonistas de suas histórias”, diz Leonice Tupari, coordenadora da AGIR, sobre a diferença do feminismo da cidade e o da aldeia. “As indígenas batalham pensando nos filhos, maridos e na comunidade em geral.”

Leonice Tupari (a esquerda) durante protesto pelos direitos indígenas em Brasília. | Foto por Gabriel Uchida/VICE Brasil (2017)

Contudo, a violência sofrida pelas mulheres não faz distinção de cultura e é algo tão histórico no país que está até na Carta de Pero Vaz de Caminha quando chegou nesta terra, documento considerado a certidão de nascimento do Brasil. Ao encontrar moças sem roupa, ele escreve: “E sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa”. O primeiro contato com o homem branco é, no geral, uma experiência traumática para os indígenas. Grande parte dos povos originários foram dizimados por doenças antes desconhecidas, além disso, há incontáveis relatos de mulheres assassinadas, abusadas ou mantidas como escravas sexuais.

Hoje, apesar da relação entre os povos ser menos cruel do que já foi um dia, a principal luta da AGIR ainda é contra o “invasor” – geralmente garimpeiros, grileiros e madeireiros. “Eles destroem nossas florestas e rios sem pensar que é de onde tiramos nossa comida e material para artesanato, sem contar que levam bebidas e drogas para as terras indígenas”, lamenta Shirley Arara da aldeia Karo Pajgap.

Mulheres da AGIR em protesto na Assembleia Legislativa de Rondônia. | Foto por Gabriel Uchida/VICE Brasil (2017)

A situação dos indígenas no Brasil é difícil. No ano passado, o Ministério da Justiça cortou mais de 50% do orçamento da FUNAI. Contudo, as guerreiras da AGIR continuam na luta. Valdenilda Massaka Karitiana da aldeia Caracol desabafa: “Eu sofro vendo meu povo sendo marginalizado e discriminado, mas acredito que nós vamos conquistar nosso espaço, porém nossas conquistas têm que ser coletivas, junto com as lideranças, os caciques, os mais velhos e as outras mulheres”.

Indígenas da AGIR lutando por seus direitos em Brasília, DF. | Foto por Gabriel Uchida/VICE

Shirley Arara na marcha dos povos indígenas em Brasília durante o Acampamento Terra Livre. Foto: Gabriel Uchida/VICE Brasil (2017)
Por Gabriel Uchida
Fonte: Vice Brasil

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