Assassinado à queima roupa pela PM em pleno horário de pico em Pinheiros

Fonte: El País

Por Talita Bedinelli

Carroceiro em Pinheiros, em São Paulo, Ricardo recebeu dois tiros no peito, revoltando moradores. Policial foi afastado das ruas enquanto testemunhas relatam temor de colaborar com apuração

Ricardo estava parado com um pedaço de pau em uma das mãos na esquina da ruas Mourato Coelho e Navarro de Andrade, no miolo do nobre bairro de Pinheiros, em São Paulo. A poucos passos, um policial militar segurava com a firmeza das duas mãos uma arma de calibre .40 em direção ao peito dele.

– Você não me conhece. Você não me conhece!, respondeu o morador de rua, um homem forte e negro.

A tréplica veio em forma de tiros: dois, à queima roupa. Ricardo caiu no chão. Ainda tentou pedir ajuda ao amigo Piauí, também morador de rua, mas logo começou a agonizar, narram quatro testemunhas ouvidas pelo EL PAÍS na manhã desta quinta-feira, um dia após o crime. Seu corpo, já inerte, ainda ficou por longos minutos no asfalto, até os policiais o envolverem num plástico preto, erguerem e levarem até o porta malas de uma viatura, que partiu cantando pneus assim que a porta fechou. Tudo às 18h, hora do rush, a cem metros de uma das ruas mais movimentadas da região oeste de São Paulo, aos olhos de moradores vizinhos, que, revoltados, acusavam os policiais de assassinato.

Minutos antes, Ricardo, conhecido nas ruas como Negão, havia se dirigido até uma pizzaria, naquela esquina. Piauí afirma que ele havia pedido um pedaço de pizza e acabou sendo ofendido por uma funcionária. Atravessou, então, a rua, contou ao amigo que foi xingado, pegou um pedaço de pau e começou a gritar na frente do restaurante. Até que o policial chegou. Quem o conhece, entretanto, estranha a versão. Diz que ele não costumava pedir comida e que, provavelmente, pedira material reciclável, como fazia todas as noites nas lojas da rua. Nesta quinta-feira, ninguém atendeu a reportagem na pizzaria.

Assassinado à queima roupa pela PMem pleno horário de pico em Pinheiros

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O coletor de material reciclável seguia a mesma rotina há anos: por volta de 18h, pouco antes de as lojas da região começarem a fechar, circulava por elas pedindo embalagens de papelão e qualquer coisa que pudesse ser vendida em um ferro velho a 700 metros de distância de onde morreu, na rua Padre João Gonçalves. No ferro velho, seus companheiros contam que ele chegava ao local sempre às 8h, com uma carroça cheia de mercadorias. Muitas vezes, vendia o material e voltava logo em seguida trazendo uma segunda carroça. “Ele era muito trabalhador. Coletava material a noite toda e juntava o dinheirinho dele”, conta o também catador Erivaldo Nego,33, que diariamente vendia marmita para Ricardo, que era corintiano e, na noite anterior, provocara o amigo palmeirense sobre o clássico que aconteceu três horas após sua morte. Seu time ganhou.

No ferro velho, Ricardo conseguia cerca de 50 reais por dia, conta Guilherme Rodrigo, 23, ajudante no local. Com o dinheiro, ia até uma Casa Lotérica, na calçada oposta da esquina em que foi morto. Jogava todos os dias, contou uma das funcionárias. Mas sempre pequenos valores. Uma vez ganhou. Era um valor baixo, mas suficiente para deixá-lo feliz, lembra. Com o restante do dinheiro das coletas comprava a marmita e, segundo um dos amigos, costumava ajudar a mãe, que mora na Grande São Paulo e trabalha como faxineira em um hospital, relata ele.

Ricardo era visto como generoso pelos que o conheciam e costumava doar aquilo que recebia e não queria. Foi o que fez na última Páscoa, quando ganhou um ovo de chocolate que não comeria. Levou para Fátima Munhoz, 35, repositora na loja Marrach, na rua Teodoro Sampaio. “Era uma delícia, recheado! Acho que era até da Kopenhagen. A gente comeu tudo”, conta ela. “Essa semana mesmo ele me trouxe queijo, daqueles furadinhos, caros, que ele ganhou de um funcionário do mercado e dividiu comigo. Falou: ‘Olha, Fátima, trouxe para o seu lanche da tarde.”

A amizade com a funcionária existia há mais de 15 anos. Começou ali mesmo entre aquelas prateleiras, quando Ricardo trabalhou na loja. “Ele começou como repositor e virou gerente”, conta o dono da loja, Fernando Braga, 41. “Era uma ótima pessoa, lidava com o público super bem, era muito inteligente”, conta o ex-patrão, que relembra que o catador, há pouco tempo, mostrou para ele uma bateriazinha a pilhas que havia criado para carregar o rádio onde escutava os jogos do Corinthians. “Ele não era de pedir, de brigar, comprava as coisas com o dinheiro que ele recebia do que conseguia catar”, diz ele, que afirma que o ex-funcionário deixou o trabalho após cerca de quatro anos, quando conseguiu um emprego em um supermercado. “Uns anos depois ele voltou pra região, já morando na rua. Ninguém sabe o que aconteceu”, afirma.

Na noite daquela quarta-feira, Ricardo se mostrava agitado. Para algumas pessoas que o viam sempre por ali, ele aparentava ter alguma enfermidade mental, que às vezes o deixava mais agressivo. Nunca havia atacado ninguém, mas às vezes gritava na rua. Tinha uma raiva especial de policiais, e já havia afirmado para várias pessoas que costumava ser agredido pelos homens de farda que circulavam por ali. “Uma vez ele contou que o chutavam quando ele estava dormindo”, disse um dos conhecidos. Por isso, quando o policial chegou, naquela noite, tornou-se ainda mais agitado. Mas nenhuma das testemunhas ouvidas pelo EL PAÍS afirma que ele tenha feito qualquer menção de atacar o policial com o pedaço de pau que segurava. “O policial era grande, podia ter voado no cara. Mas não, atirou a sangue frio. Depois tirou um colete que usava e o quepe e ficou andando por aí, como se não tivesse feito nada. Foi uma covardia, isso sim”, conta o funcionário de um comércio local, que presenciou tudo, mas, por medo, não quer se identificar.

Pelo mesmo medo, diz ele, não irá depor na corregedoria da Polícia Militar, contando o que viu. Mesma posição das outras pessoas ouvidas pela reportagem, o que deve dificultar a punição do policial. Na região, nenhuma das câmeras de segurança que poderiam ter gravado o fato estava funcionando, segundo policiais do  Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), que investigam o crime e estavam na região na manhã desta quinta-feira. Segundo testemunhas, que gravaram vídeos sobre o ocorrido, a cena do crime também foi alterada, com o recolhimento de cartuchos de balas. O relato dos fatos registrado no Boletim de Ocorrência, obtido pelo site G1, afirma que o policial, identificado como José Marques Madalho, “foi obrigado” a atirar para se defender. “O indivíduo começou a ofender os policiais militares. Em seguida, o indivíduo pegou um pedaço de madeira e foi para cima dos policiais militares. José Marques Madalho, para se defender, foi obrigado a efetuar dois disparos de arma de fogo em direção ao indivíduo, que mesmo socorrido para o Hospital das Clínicas, veio a óbito”. O corpo de Ricardo, que no documento consta como pessoa desconhecida, é descrito como de pele parda, em torno 1,75 metros e cerca de 80 quilos. Cabelo preto e sem tatuagens. E duas perfurações na região do tórax.

Carroça de Ricardo, enfeitada para o protesto.

Carroça de Ricardo, enfeitada para o protesto | MUNDANO

A secretaria de Segurança Pública não respondeu até a publicação desta reportagem os motivos que levaram os policiais a retirarem o corpo de Ricardo do local, mesmo existindo um decreto, desde 2013, que proíbe a PM de “socorrer vítimas de confrontos policiais”. A pasta afirma que o policial foi afastado das ruas, e colocado em funções administrativas. O Hospital das Clínicas afirma que um indivíduo que bate com a descrição de Ricardo chegou ao local às 18h25 e morreu às 18h30. A Secretaria Municipal da Saúde, questionada nesta tarde, ainda não respondeu se o SAMU chegou a ser acionado pelos policiais para socorrê-lo.

Os carroceiros, amigos de Ricardo, e os moradores dos prédios de Pinheiros organizaram no final desta quinta-feira uma manifestação contra a violência sofrida por ele. Levaram sua antiga carroça, pintada de branco e enfeitada com coroas e velas. Ela foi deixada no mesmo local em que o morador de rua morreu um dia antes, onde, ao longo do dia, dezenas de flores foram depositadas. Ali, todos conhecem Ricardo. E ninguém quer que sua morte seja esquecida.

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